Meu Primeiro Mestre

 

Eduardo Quintana Sperb
Eduardo Quintana Sperb

 

VIII Memorial Internacional de Xadrez Bóris  Maranhão  Otero  

  Rio Grande – RS – Brasil  Janeiro/1995

 

 

 

                Depois de jogada a primeira rodada contra um “filé” -segundo vocabulário mais vulgar, que não uso; saí da mesa 16 para dirigir-me ao famoso “osso”, mas qual?

                Cálculo rápido: 26 jogadores com um ponto – 3×16 – fechando cores; temerosa descoberta: Daniel Izquierdo – 2330 – Mestre FIDE – recém chegado das Olimpíadas!! Mesa!!!

                Como se não bastasse enfrentar um adversário deste porte na 2ª rodada meus caros amigos, devo contar-lhes a respeito da “sinistra toca” da mesa 3. Em 13 partidas jogadas (1993 e 1994), somei 9 vitórias e 4 derrotas, porém, todas na mesa 3!!

                Mestre FIDE, mesa 3, já que estou no inferno, o melhor é abraçar o diabo, vamos lá…

                Cheguei alguns minutos antes, preparei o tabuleiro, jogo de peças, relógio e planilha. “Miro” o tabuleiro e busco concentrar-me, além é claro, de ignorar o número da mesa -números de mesas não jogam xadrez, nós enxadristas sim…ou pelo menos pensamos / tentamos.

                Um rapaz de baixa estatura, de barba e óculos aproxima-se da mesa, cumprimenta-me e senta. Pergunta meu nome e como não entende, solicita minha planilha que mostra: Sperb, Eduardo Quintana 1899/FGX e Izquierdo, Daniel 2330/FIDE. Percebo que meu adversário mira 1899 com certa displicência, talvez pouco caso, tudo bem deve ter pensado ele, osso pra mim só na 4ª, 5ª rodada…

                À luta 1. Nf3 …alguns minutos a cerca do que poderia vir e, sem “viajar” muito, joguei: 1. … d5, 2. b3 …, já conhecia, mas jamais havia jogado; 2. … e6, 3. Bb2 f5, após um bom tempo de reflexão, resolvi jogar uma Holandesa, já que alguma “coisa” conheço.

                4. d3 Nf6, 5. Nbd2 Be7, 6. g3 Kg8, 7. Bg2 c6, 8. Kg1 a5 (em busca de espaço na ala da dama, ainda que, Qe8 fosse mais exato segundo o plano a seguir: partir para uma ofensiva na ala do rei. Segundo Pachman, a5 se justifica em função a manobra Na6 e Nc7) 9. a3 Qe8 ( se 9. … a4?!, 10. b4!±) 10. c4 Nbd7, 11. Qc2 Qh5 (configura-se aqui o “Ataque Caveira”, segundo o MN Paulo Sérgio) 12. e4 … (como no lance 10. c4, meu adversário jogou 12. e4 como que contando como certa a captura 12. de4/c4, mas d5 é a “alma do negócio”) 12. … f4! (possibilita a abertura da coluna f para um posterior ataque e cria tensão na ala do rei). Diagrama.

 

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13. Rae1 Rf7 (defende o bispo e continua no plano com um futuro Taf8) 14. cd5 cd5, 15. ed5 ed5, 16. Ne5 Ne5, 17. Re5 Qh6 (continua jogando na ala do rei, incluso Bh3!-Raf8!) 18. Nf3 (defende-se de 18. … Ng4!) 18. … Bd6! (desprega a torre da defesa do bispo e coloca-o agindo diretamente na ala do rei) 19. Rg5 Bh3, 20. Bf6 Rf6, 21. Rd5 ( o peão de d5 cumpriu bem sua função no meio-jogo fiscalizando o centro e4 e c4, agora não mais importa, pois é “tudo na Ala do Rim”, digo, do rei…) 21. … fg3 (abrindo finalmente a coluna f para o ataque e colocando o condutor das brancas num dilema: se 22. hg3 …, fica sob ataque f3 e a posteriori h2/h1 ou então, 22. fg3 … deixando um “hole” na posição: e3) 22. fg3 Raf8, 23.Bh3 … (buscando aliviar o ataque com trocas. Se 23. Ra5 Rf3!!, 24. Rf3 Rf3, 25. Qc4 Kh8, 26. Ra8 Bf8 – Qe3 Qe1¬) 23. … Qh3, 24. Qg2 Qe6 (sem trocas desnecessárias!!) 25. Nd2 …(objetivando defender a torre e solucionar o problema do cavalo em f3, mas não do “hole” em e3 e do ataque pela coluna f) 25. … Qe3, 26. Kh1 Rf2!!!, 27. Tf2 …(se: 27. Qe4 Rh2, 28. Kh2 Qg3, 29. Kh1 Qh2 mate ou 27. Qh3 Rf1, 28. Nf1 Qf3, 29. Qg2 Qf1, 30. Qg2 Tf1, 31. Kg2 Rf6¬) 27. … Rf2, 28. Qg1 Qd2, 29. Rd6 Qe2, 30. Rd8 Rf7, 31. Qf2 Qf2, 32. h3 Qg3, 33. Rd7 Ke8, 34. Rd4 Qh3, 35. Kg1 Qe3, e com toda correção e cavalheirismo estendeu a mão e cumprimentou-me.

                Partida terminada, miro mais uma vez na planilha os 2330/FIDE e o número da mesa, e penso: “Buenas, nem rating, nem mesa jogam “chess” tchê!”CB056255